O FARDO DA PANDEMIA É MAIOR PARA MÉDICAS DO QUE PARA MÉDICOS

por Prof. Dr. Miguel Nácul

A pandemia da COVID-19 tem trazido dificuldades para pessoas que têm filhos e tentam equilibrar casa, trabalho e proteção de seus familiares. Estudo publicado no periódico JAMA Network Open por pesquisadores das Universidades de Michigan, Harvard e da Carolina do Sul, indica que médicos e médicas estão muito expostos a esses estressores. No entanto, as tensões no equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e familiar, causadas pela pandemia, diferiram entre médicos e médicas. O fardo tem sido maior para as médicas, e as consequências podem ir muito além das questões domiciliares com efeitos de longo prazo potencialmente devastadores para o sistema de saúde. 

Muita atenção na mídia tem sido dada a atuação de médicos(as) e outros(as) profissionais de saúde na linha de frente da pandemia. Suas vidas profissionais receberam grande atenção da imprensa e de pesquisadores. Porém, as questões familiares, nem tanto. Médicos(as) têm famílias, e a pandemia afetou quase tudo em suas vidas, especialmente na interseção de vida profissional e doméstica. Fechamento de escolas e creches (grande causa de absenteísmo profissional), trabalho de casa, jornadas maiores ou menores – todas essas mudanças têm consequências na vida familiar e na saúde mental de pais/mães que também são médicos(as).
 
Os autores estudaram como os fatores de trabalho/família afetaram a saúde mental de pais/mães médicos(as) em início de carreira nos Estados Unidos durante o primeiro ano da pandemia. Os resultados sugerem que a pandemia aumentou a disparidade de gênero e elevou desproporcionalmente o fardo das médicas, pois o gerenciamento do lar recai principalmente sobre as mães. Os participantes eram médicos inscritos no Intern Health Study , um estudo longitudinal que pesquisa regularmente internos nos Estados Unidos para avaliar o estresse e o humor. Quando os pesquisadores compararam os resultados da pesquisa no período pré-pandemia (2018) com os resultados posteriores (2020), encontraram uma notável diferença de gênero em como a pandemia mudou as obrigações familiares e de trabalho dos(as) médicos(as). 

Estudos anteriores demonstraram que médicas assumem uma parcela maior das tarefas domésticas e do cuidado das crianças do que médicos. A pesquisa do JAMA descobriu que essa participação aumentou com a pandemia. As mães médicas têm agora uma probabilidade trinta vezes maior de serem responsáveis por essas tarefas do que os pais médicos. Em famílias em que ambos os pais eram médicos, nenhum homem assumiu o papel principal no gerenciamento das demandas extras causadas pela pandemia. Além disso, as mulheres tiveram probabilidade duas vezes maior do que os homens de trabalhar principalmente em casa e em horários reduzidos.

Este “extra estresse” parece estar afetando as médicas significativamente do ponto de vista emocional. Na pesquisa de 2020, as mães médicas tiveram pontuações mais altas para sintomas de ansiedade e depressão em comparação com os médicos. Vale destacar que a pesquisa de 2018 não mostrou uma diferença significativa nos escores de depressão entre homens e mulheres. Tampouco houve diferenças significativas nos escores de depressão e ansiedade entre mulheres e homens que não eram pais ou em relatos de conflito de trabalho/família antes e depois da pandemia.

Os resultados do estudo indicam que a pandemia aumentou a diferença de gênero entre médicos e médicas quando se trata de administrar a vida familiar e lidar com o estresse. Embora esses sejam problemas sérios para as médicas e suas famílias, os efeitos vão além do lar e das pessoas. Mesmo antes da pandemia, as mulheres lutavam por igualdade na progressão na carreira médica e de oportunidades, bem como nos salários. Este novo revés pode tornar os desafios ainda maiores. “Mesmo os ajustes de curto prazo podem ter sérias repercussões de longo prazo, pois podem levar a rendimentos mais baixos e impactar negativamente as oportunidades de promoção, exacerbando ainda mais as desigualdades de gênero na remuneração e na progressão”, concluíram os autores.

O potencial malefício se estende não somente a profissão de médico, mas também ao próprio sistema de saúde. A profissão já está lutando para reter jovens médicas, e essa situação pode piorar o problema e ter consequências de longo prazo. Citando dados que mostram que as médicas passam mais tempo com os pacientes e que seus pacientes podem ter melhores desfechos, os autores sustentam que perder mais médicas em início de carreira pode ser devastador para o sistema de saúde dos Estados Unidos, particularmente no contexto de uma pandemia global e uma escassez iminente de médicos. Os autores recomendam que os formuladores de políticas públicas e institucionais levem em consideração os efeitos da pandemia nas mães médicas para garantir que os ganhos recentes na equidade de gênero para as médicas não sejam vítimas da COVID-19.


Referencias Bibliográficas


2 - Frank E, Zhao Z, Fang Y, Rotenstein LS, Sen S, Guille C. Experiences of Work-Family Conflict and Mental Health Symptoms by Gender Among Physician Parents During the COVID-19 Pandemic. JAMA Netw Open. 2021;4(11):e2134315.