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Crônica de Natal: "Uma manta para um desconhecido"

Atualizado: 11 de jan.

Presente na inauguração do Instituto Simutec em Porto Alegre em 27 de março de 2014 na antiga sede localizada na Avenida Osvaldo Aranha, atuo desde 2016 como parceiro do Instituto em projetos de ensino em Videocirurgia e como Coordenador Médico da instituição. Há quatro anos me mudei para o Bairro Bom Fim em Porto Alegre, tornando-me vizinho da antiga sede do Instituto e do tradicional Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre (HPS), onde trabalho como cirurgião desde 1994. Em verdade, sempre sonhei em “morar perto do serviço”, o que me permite ir caminhando para o meu trabalho. Bairro central e conhecido como boêmio, o Bom Fim tem visto a sua população de moradores de rua aumentar em função da crise econômica, da leniência do poder público aliado a natural solidariedade humana em uma região com muitos bares, restaurantes, residências e um hospital SUS de urgência (O HPS), sempre aberto para qualquer indivíduo ser atendido.

  

No meu trajeto pelo bairro até o Instituto Simutec ou HPS incluía a passagem pela movimentada Avenida Osvaldo Aranha. Ao longo do caminho, percebo claramente o aumento do número de moradores de rua, caracteristicamente móveis e ativos, buscando constantemente comida e produtos recicláveis que lhe gerem renda. Meu hábito é de não interagir com eles, pois a reação é muito difícil de prever. Por isso, são poucos os que reconheço.

  

Eis que em um determinado dia do ano de 2019, a caminho do Instituto Simutec, percebi numa área de calçada estreita junto ao prédio do HPS na Avenida Osvaldo Aranha, a presença de um senhor de tez bem branca, barba e olhos azuis, sentado em uma singela cadeira plástica como aquelas de piscina. Indo e vindo pelo caminho em vários dias, percebi que ele estabelecera aquela posição como sua “casa”. E assim se repetiam os encontros até que comecei a cumprimentá-lo, recebendo o cumprimento de volta.

  

Passaram-se dias e noites, quentes e frias. Com a chegada do inverno, os dias frios são difíceis para todos aqui no Rio Grande do Sul, ainda mais para quem está na rua e sem as roupas e coberturas adequadas. Vez por outra notava uma face ruborizada, talvez por ingestão alcoólica, prática utilizada para tentar gerar algum prazer em uma vida muito dura na rua, além de aquecer um pouco o corpo. Os cumprimentos continuavam já com certa cumplicidade.

  

Certa vez em uma manhã muita fria após mais uma noite de plantão no HPS, ao encontrá-lo novamente, vi um homem mal agasalhado, até tremendo um pouco. Parei e não tive dúvidas, dei a ele uma larga manta que carregava. Mesmo sendo relativamente fina e cheia de furos. Ele imediatamente posicionou a manta sobre seu corpo e agradeceu com um olhar um tanto surpreso. Ao chegar em casa, com certo orgulho, contei para a minha esposa. Para a minha surpresa, ela não aprovou eu ter dado ao morador de rua uma tradicional manta que pertenceu a sua juventude, velha, mas querida, com apego afetivo pelos anos de serviços prestados.

  

Assim, cada vez que passava pelo meu novo “amigo” vislumbrava a agora famosa manta, e confesso que algumas vezes pensei em pedi-la de volta, mas é claro que ela estava sendo muito mais importante para ele do que para mim.

  

Passaram os meses, veio a pandemia e notei que o velho incorporou uma rasgada máscara de pano. Tempos depois, o que é natural para essas pessoas, aliou-se a um casal, instalando um colchão do lado da já tradicional cadeira de plástico.

  

Recentemente, notei que ele voltou a ficar sozinho. Não consegui mais visualizar a minha manta creme, provavelmente furtada ou trocada por comida ou favores. Também notei um inchaço corporal maior, com a face mais rosada e um olhar mais longe e perdido. Agora, nem sempre me retornava o cumprimento, o que me trouxe certa preocupação com a saúde do meu parceiro do trajeto da Osvaldo Aranha.

  

Finalmente, em um determinado dia, a cadeira e o senhor não mais estavam ali. E por ali passei muitas vezes e o velho ponto foi encerrado. Também nunca mais o vi no meu bairro. Não sei dizer o que aconteceu com ele.

  

O que eu podia ter feito de diferente? O que nós, como sociedade, poderíamos oferecer a estes indivíduos? Indivíduos, muitas vezes invisíveis e em sofrimento, que trazem uma bagagem de história e estórias que, se tivéssemos a oportunidade de conhecer, certamente seríamos surpreendidos.

  

Continuo todos os dias com meu trajeto em direção ao HPS para os meus incontáveis plantões. Mas não somente sinto falta do meu peculiar amigo morador de rua como da transferência da sede do Instituto Simutec do meu bairro para a nossa Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS). No Instituto Simutec continuo a desenvolver minhas atividades docentes e de coordenação, procurando contribuir para a qualificação de profissionais médicos. Em última instância, ao longo dos seus nove anos de existência, o Instituto Simutec tem contribuído de forma robusta para o ensino e treinamento de médicos e acadêmicos de Medicina, contribuindo para a qualificação do atendimento da nossa população, representada nesta singela crônica natalina pelo meu amigo da manta.

  

Um Feliz Natal e um 2024 de conquistas!

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