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Enamed obrigatório: por que a habilidade prática vai pesar cada vez mais na formação médica

30 de set.
5 min de leitura

Em 19 de junho de 2026, o governo federal publicou a Medida Provisória nº 1.370/2026, que muda um ponto central da carreira médica no Brasil: a aprovação no Enamed, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, passa a ser condição para o registro no Conselho Regional de Medicina e, portanto, para exercer a profissão.


A medida ainda precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional para virar lei, e o prazo de validade da MP termina em 16 de outubro de 2026. Mas, independentemente do desfecho em Brasília, a direção do debate já está clara: a formação médica brasileira está deixando de avaliar só o que o médico sabe e começando a cobrar que ele prove o que sabe fazer.


O que a MP do Enamed estabelece

Pelo texto publicado, o Enamed passa a ser aplicado em dois momentos da graduação. No 4º ano, a prova tem caráter diagnóstico, para orientar o estudante e a própria escola. Ao final do curso, a aprovação passa a ser exigida para o registro no CRM. A exigência vale para quem ingressar no curso de Medicina após a publicação da norma, e a previsão é de aplicação semestral a partir de 2027.

A MP também integra o Enamed a outros exames da formação médica: a prova passa a substituir a primeira fase do Revalida, exame para médicos formados no exterior, e a nota pode ser usada em processos seletivos de residência médica com acesso direto. Cursos com desempenho insuficiente podem sofrer supervisão, redução de vagas ou suspensão de novos ingressos. Em agosto, o Superior Tribunal de Justiça derrubou a decisão liminar que havia suspendido o uso dos resultados do Enamed 2025 para essas medidas regulatórias.

A questão que continua em aberto: a prova prática

Hoje, o Enamed é uma prova teórica. Ele avalia raciocínio clínico, conduta ética e tomada de decisão em cenários reais, mas por meio de questões. Durante a tramitação da MP, parlamentares apresentaram emendas propondo uma segunda etapa de avaliação de habilidades clínicas e clínico-cirúrgicas, nos moldes do que já acontece no Revalida. Até agora, porém, a forma de implementar nacionalmente um componente prático obrigatório segue indefinida.

Essa lacuna diz muito sobre o momento da educação médica no país. Há um consenso crescente de que conhecimento teórico, por si só, não garante segurança do paciente. E há uma dificuldade real em medir, em escala nacional, aquilo que define um bom profissional na hora do procedimento: a precisão do gesto, a leitura da anatomia, a capacidade de reagir a uma intercorrência.

Competência não é só saber: é conseguir executar

A literatura médica é clara nesse ponto. A competência cirúrgica está relacionada tanto à capacidade cognitiva quanto à capacidade técnica do cirurgião, que precisa estar apto a realizar procedimentos em um nível aceitável (Patil et al., 2003). Uma prova teórica consegue avaliar bem a primeira parte. A segunda só se constrói, e só se comprova, na prática.

Nos procedimentos minimamente invasivos, essa distância entre saber e executar é ainda maior. Na videolaparoscopia, por exemplo, o médico precisa desenvolver noção de profundidade em uma imagem bidimensional, coordenar movimentos e compreender o efeito fulcro, em que o instrumento se move no sentido oposto ao da mão (Nisky et al., 2012). Na ultrassonografia, o desafio é integrar o movimento fino do transdutor à interpretação da imagem em tempo real. Nenhuma dessas habilidades é adquirida lendo sobre elas.

Por isso, o treinamento deve ser realizado em etapas, com dificuldade crescente: primeiro a aquisição das habilidades básicas necessárias para compreender as ferramentas utilizadas, depois os procedimentos, de acordo com o grau de complexidade (Nácul et al., 2015). Com repetição e acompanhamento do desempenho, o médico passa da fase em que precisa pensar em cada movimento para o estágio de automação, em que o procedimento flui e a atenção fica livre para o que importa: identificar e manejar complicações (Reznick & MacRae, 2006).

O que a evidência diz sobre simulação e desempenho real

Se a tendência é cobrar cada vez mais a habilidade prática, a pergunta natural é: qual a forma mais segura e eficiente de desenvolvê-la? A simulação realística tem uma resposta sustentada por estudos clínicos.

Em um ensaio clínico randomizado publicado no BMJ, residentes de ginecologia e obstetrícia em início de formação foram divididos em dois grupos. Um deles treinou em simulador de realidade virtual até atingir um nível de proficiência pré-definido; o outro seguiu a formação convencional. Na salpingectomia laparoscópica real, o grupo treinado em simulador obteve escore mediano de desempenho de 33 pontos, contra 23 do grupo controle, e levou metade do tempo para concluir o procedimento: 12 minutos contra 24. Na prática, os iniciantes treinados alcançaram o nível de cirurgiões com experiência intermediária (Larsen et al., 2009).

Uma revisão sistemática de ensaios randomizados sobre simulação em laparoscopia reforçou essa conclusão: o treinamento em simulador de realidade virtual melhora o desempenho no centro cirúrgico real (Larsen et al., 2012). E, em estudo de validação de face com 27 ginecologistas, o simulador LAP Mentor recebeu notas altas na aparência dos instrumentos e na coordenação olho-mão, sendo considerado uma ferramenta de treinamento válida (Bharathan et al.).

Treinar a habilidade antes que ela seja cobrada

Seja qual for o formato final do Enamed, o recado para estudantes, recém-formados e residentes é o mesmo: a habilidade prática vai pesar cada vez mais. Ela será cobrada nos processos seletivos, na residência e, acima de tudo, no atendimento ao paciente.

No Instituto Simutec, trabalhamos exatamente essa etapa da formação. Desde 2014, já treinamos mais de 8 mil profissionais com uma metodologia clinicamente validada, baseada em treinamentos individuais com simuladores de alta fidelidade e retorno háptico. O retorno háptico reproduz a resistência dos tecidos e devolve ao médico, em tempo real, a consequência física de cada movimento. Com um cronograma estruturado e acompanhamento personalizado, conduzimos o aluno das habilidades básicas até a automação do procedimento, com segurança e sem risco ao paciente.

Oferecemos essa formação nas sete áreas em que atuamos: Videolaparoscopia, Ultrassonografia, Endoscopia, Endourologia, Colonoscopia, Broncoscopia e Endovascular. É o caminho para quem quer chegar mais preparado a cada nova etapa da carreira.

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Referências

- Brasil. Medida Provisória nº 1.370, de 19 de junho de 2026. Institui a política integrada de avaliação da formação médica (Enamed).

- Agência Brasil. Enamed será requisito para exercício da medicina no Brasil, junho de 2026.

- Patil NG, Cheng SW, Wong J. Surgical competence. World Journal of Surgery, 2003; 27:943-947.

- Nisky I, Huang F, Milstein A, Pugh CM, Mussa-Ivaldi FA, Karniel A. Perception of stiffness in laparoscopy – the fulcrum effect. Studies in Health Technology and Informatics, 2012; 173:313-9.

- Nácul MP, Cavazzola LT, Melo MC. Current status of residency training in laparoscopic surgery in Brazil: a critical review. ABCD Arq Bras Cir Dig, 2015; 28(1):81-85.

- Reznick RK, MacRae H. Teaching surgical skills — changes in the wind. The New England Journal of Medicine, 2006; 355(25):2664-69.

- Larsen CR, Soerensen JL, Grantcharov TP, et al. Effect of virtual reality training on laparoscopic surgery: randomised controlled trial. BMJ, 2009; 338:b1802.

- Larsen CR, Oestergaard J, Ottesen BS, Soerensen JL. The efficacy of virtual reality simulation training in laparoscopy: a systematic review of randomized trials. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, 2012.

- Bharathan R, McLaren JS, Ind T. Virtual Reality Laparoscopic Simulator: Face Validity of Essential Gynecological Procedures. St George's Healthcare NHS Trust, Londres.

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